A ativista sueca Greta Thunberg, que inspirou milhões de pessoas pelo mundo a cobrar medidas contra as mudanças climáticas, foi eleita a Personalidade do Ano de 2019 pela revista norte-americana Time. Ela se torna a pessoa mais jovem a receber o reconhecimento.

Criado em 1927, a “Personalidade do Ano” é uma edição anual da revista Time que apresenta pessoas, grupo, movimento ou ideia mais influente dos últimos 12 meses. Inicialmente, a edição reconhecia apenas trabalhos de homens, sendo chamada de “Homem do Ano”. Décadas depois, a fim de evitar o sexismo, o título foi alterado, em 1999, para “Personalidade do Ano”. Grandes figuras mundiais já receberam o reconhecimento, como Mahatma Gandhi, Rainha Elizabeth II e Barack Obama.

Greta Thunberg está em Madri, desde quinta-feira (5), onde participa da Conferência do Clima da ONU. Toda vez que ela aparece no evento causa uma grande comoção: as pessoas tentam se aproximar e os eventos que participa ficam lotados, até com filas do lado de fora.

A escolha de Greta, de apenas 16 anos, para estampar a capa da revista Time se deu um dia após o presidente do Brasil Jair Bolsonaro tê-la criticada. Na última terça-feira (10), ao falar com jornalistas na saída do Palácio da Alvorada, Bolsonaro comentou sobre a morte de dois índios Guajajara em um atentado no interior do Maranhão quando, ao surgir o nome de Greta, chamou a jovem de “pirralha”: “Índio? Qual é o nome daquela menina lá? Greta. A Greta já falou que os índios morreram porque estavam defendendo a Amazônia. É impressionante a imprensa dar espaço para uma pirralha dessa aí. Pirralha!”, declarou o presidente. Em resposta, bem-humorada, ela adicionou o termo à descrição do perfil que mantém no Twitter.

Greta Thunberg durante protesto

Greta, que completará 17 anos em janeiro e é conhecida por suas falas firmes, lançou uma campanha há dois anos ao faltar as aulas na escola toda sexta-feira para protestar em frente ao Parlamento sueco, como forma de pressionar as autoridades a cumprir metas de cortar as emissões de carbono. As ações da jovem rapidamente atraíram a atenção de milhões de pessoas ao redor do mundo, que foram às ruas em setembro deste ano para demonstrar apoio à causa. Recentemente ela também se posicionou sobre os ataques que lideranças indígenas Guajajara têm sofrido na região do Maranhão e afirmou que os povos indígenas do Brasil estão sendo assassinados por proteger as florestas.

“Nos 16 meses (desde que os protestos começaram), ela se dirigiu a chefes de Estado na Organização das Nações Unidas, encontrou o papa, contrariou o presidente dos Estados Unidos e inspirou 4 milhões de pessoas a participar de uma greve global pelo clima“, afirmou a revista. “Sua imagem foi comemorada em murais e fantasias de Halloween, e seu nome foi atribuído a tudo, desde ações de bicicletas a besouros. Margaret Atwood comparou-a a Joana d’Arc. Depois de perceber um aumento de 100 vezes no seu uso, os lexicógrafos do Collins Dictionary nomearam a ideia pioneira de Thunberg, “greve climática”, a palavra do ano”, ressaltou a Time.

“Conseguiu criar uma mudança de atitude global, transformando milhões de vagas ansiedades em um movimento mundial que pedia mudanças urgentes. Ela ofereceu um apelo moral para aqueles que estão dispostos a agir e lançou vergonha para aqueles que não o são. Ela concentrou a atenção do mundo nas injustiças ambientais que jovens ativistas indígenas protestam há anos. Por causa dela, centenas de milhares de adolescentes ‘Gretas’, do Líbano à Libéria, deixaram a escola para liderar seus colegas nas greves climáticas em todo o mundo”, declarou a revista Time, apontando os vários motivos que levaram ao reconhecimento.

Greta Thunberg na capa da Time

A trajetória de Greta Thunberg começou como um protesto solitário

A ativista começou a ganhar atenção em agosto do ano passado, quando iniciou um protesto solitário na frente do Parlamento sueco. Todas as sextas-feiras, ela passou a faltar às aulas e, portando apenas um cartaz com os dizeres “em greve escolar pelo clima”, distribuía folhetos com uma lista de fatos científicos sobre as mudanças climáticas e explicações sobre por qual motivo ela estava em greve.

O ato era simples, mas firme: ela estava decidida a manter seu manifesto silencioso por todas as sextas-feiras até que os governantes do seu país tomassem medidas concretas para reduzir suas emissões de gases de efeito estufa. Sua reivindicação era que a Suécia se adequasse à meta estabelecida pelo Acordo de Paris de conter o aumento da temperatura do planeta a bem menos de 2ºC até o final do século.

Por algum desses motivos difíceis de entender, visto que a adolescente sueca não foi a primeira jovem bem articulada a protestar pelo clima, o protesto de Greta ganhou o mundo e foi o início de um movimento chamado “Fridays for Future” – Sextas pelo Futuro, que mobiliza milhões de pessoas, em sua maioria jovens, em todo o planeta. 

Greta Thunberg: uma das principais ativistas mundiais

Em janeiro deste ano, discursou no Fórum Econômico Mundial, em Davos: “Os adultos continuam dizendo: ‘Devemos dar aos jovens esperança’, mas eu não quero sua esperança. Eu não quero que você seja esperançoso. Eu quero que você entre em pânico. Eu quero que você sinta o medo que sinto todos os dias. E então eu quero que você aja.”

As “Sextas pelo Futuro” continuaram atraindo cada vez mais gente. Em março, ela foi indicada por um deputado do Partido Socialista norueguês ao prêmio Nobel da Paz. “Se não fizermos nada para conter a mudança do clima, ela será a causa de guerras, conflitos e refugiados. Greta Thunberg lançou um movimento em massa que eu vejo como a maior contribuição para a paz”, disse o deputado Freddy André Øvstegård.

Neste ano, na marcha pelo clima em Nova York, que antecedeu a Cúpula do Clima da ONU, ela falou: “As pessoas que têm poder em todo o mundo são iguais em promessas vazias, em mentiras, em inação. A gente não tomou as ruas, não sacrificou nossa educação para fazer selfies com políticos que dizem que nos admiram. O que queremos é um futuro seguro. Estamos aqui para acordá-los. Somos uma onda de mudanças”, declarou a ativista.

Três dias depois, ela abria a cúpula convocada pelo secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, para que os países apresentassem planos mais ambiciosos para conter a crise climática. Greta proferiu seu discurso mais emotivo desde o início da sua jornada. Suas feições deram a impressão que ela estava sofrendo ao dizer tudo aquilo.

“Isto está completamente errado. Eu não deveria estar aqui. Eu deveria estar na minha escola, do outro lado do oceano. E vocês vêm até nós, jovens, para pedir esperança. Como vocês ousam?”, questionou. “As pessoas estão sofrendo e estão morrendo. Os nossos ecossistemas estão morrendo. Nós estamos vivenciando o começo de uma extinção em massa. E tudo o que vocês fazem é falar de dinheiro e de contos de fadas sobre um crescimento econômico eterno. Como vocês se atrevem?”, proferiu a jovem ativista.

Greta Thunberg durante discurso na Cúpula da ONU

Em entrevista ao Estado concedida em março, por email, quando as “sextas pelo futuro” já atraíam milhares de pessoas no mundo, Greta contou que realmente a consciência da crise do clima era algo que a atormentava desde muito cedo. “Acho que eu tinha uns 9 anos. Pensei como era estranho que uma coisa que parecia tão importante não estava sendo levada a sério por ninguém. Os professores diziam uma coisa e ainda assim todo mundo estava fazendo exatamente o oposto”, disse.

“Eu via filmes impactantes na escola, com potencial de mudar vidas, e ainda assim ninguém parecia se importar. Eu fiquei deprimida e parei de ir à escola. Então meus pais começaram a me ouvir. E uma das coisas que mudaram foi sobre pegar aviões. Quando eu percebi o quanto voar era ruim (em relação a emissões de gases de efeito) em um nível individual e ainda assim ninguém se importava… Minha mãe sempre voou muito a trabalho (Malena Erman é cantora de ópera). Depois de muita conversa meus pais acabaram ficando sem desculpas nem argumentos. Então minha mãe decidiu que ia parar de voar. E isso mudou tudo, me deu energia para ser ouvida por outras pessoas”, contou.

Diagnosticada com a síndrome de Asperger, um tipo leve dentro do espectro do autismo, Greta tem uma clareza impressionante. Seus discursos baseados no melhor conhecimento científico sobre o problema são precisos, duros, diretos, convincentes. E ela não poupa ninguém.

Sua figura magrinha, diminuta, séria, serena e decidida influenciou pessoas com mais força e rapidez do que qualquer outra tentativa anterior de manifestação ambientalista. A menina se transformou em uma liderança climática e um símbolo de esperança.

Greta Thunberg tem despertado ações revolucionárias por todo o mundo

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