Desde domingo (15), quando cumprimentou mais de 200 apoiadores depois de retornar de uma viagem na qual 23 pessoas do seu convívio foram diagnósticas com coronavírus, o presidente quebrou o elo com os seus eleitores.

A atitude irresponsável desvendou para milhões de bolsonaristas um político despreparado para o cargo, o mesmo sentimento de desilusão que atingiu Dilma ao longo das marchas de 2013.

Estamos à beira de uma nova crise política, com o agravante desta estar acompanhada de um cataclisma na saúde e da completa paralisação na economia.

Aos sintomas da nova crise:

→ É otimista a revisão do PIB para 0,03% pelo Ministério da Fazenda. Dentro da Secretaria do Tesouro, há estudos mais em linha com o mercado, projetando uma queda entre 3% e 4% negativos (em linha com a previsão da Goldman Sachs de 3,1% negativos). Esses números partem de um crescimento de zero ou perto de zero no primeiro trimestre e com uma recessão gigantesca no trimestre abril-maio-junho, os meses de pico do coronavírus.

Estamos falando de uma queda perto dos 10% negativos nestes três meses, algo nunca visto na economia brasileira.

No segundo semestre, com um eventual controle da epidemia, o País iniciaria uma recuperação acima de 4% nos dois últimos trimestres do ano. É uma recessão do tamanho da derrocada de 2014/16, só que sem o País ter se recuperado ainda do baque dos anos Dilma. Em números cruéis: a recessão de Dilma causou mais de 200 mil desempregados por mês.

→ Principal fiador do governo junto ao establishment, o ministro Paulo Guedes mostrou-se menor que a crise. Até domingo (22), ele deu uma constrangedora entrevista à Folha onde admitiu que apenas no dia 12 de março passou a dar importância à velocidade da propagação do coronavírus (àquela altura a Organização Mundial de Saúde já havia decretado pandemia).

A repórter Thais Bilenki, da revista Piauí, mostrou que apenas no dia 17, Guedes caiu na real de que haveria uma recessão neste ano – isso depois de dias de debate com os secretários Mansueto Almeida e Waldery Rodrigues Junior. O mercado percebeu o estado de negação de Guedes.

→ O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, também fraquejou, embora tenha instrumentos para se recuperar. A decisão do BC de cortar a taxa Selic em 0,5 ponto percentual foi vista como fraca, mas pior foi o comunicado ao mercado fechando portas para futuros cortes – uma previsão sem sentido num momento no qual ninguém sabe como será a próxima semana.

O mercado reagiu mal e a curva de juros futuros virou. RCN será testado na próxima semana.

Roberto Campos Neto

→ De acordo com as projeções anunciadas pelo ministro Mandetta, o número de casos e de morte por coronavírus seguirá crescendo até um pico em julho, estabilidade em agosto e com queda a partir de setembro. Nessa projeção, o sistema público teria em tese tempo para se preparar para a sobrecarga nos hospitais com internados.

Mas o próprio ministro foi pessimista. Reconhece que o sistema estará em “colapso” (palavra entendida aqui como interditada, não necessariamente desmoronado). Projeções epidemiológicas são complexas, mas segundo o cenário em estudo no Ministério da Saúde o número de infectados pode ultrapassar de 1 milhão de brasileiros, com dezenas de milhares de mortes.

A demora da chegada ao pico do coronavírus, no entanto, implica que a parada da economia vai se alastrar por mais tempo. As medidas de interdição de fábricas, escritórios e comércio vão certamente enrijecer nos piores meses, ampliando a recessão e o desemprego.

Famílias com filhos em casa, sem escola, terão mais dificuldades. Haverá queda brutal na renda.

→ O panelaço de quarta-feira (18) foi da mesma dimensão dos que atingiram Dilma a partir de março de 2015, com o agravante de estarem concentrados em bairros que majoritariamente votaram no capitão. Foi o eleitorado dele que gravou vídeos batendo panelas.

Pela primeira vez desde 2018, Bolsonaro perdeu a maioria das redes sociais. Monitoramento feito pela DAPP-FGV mostra que desde domingo (22) a base Bolsonaro foi reduzida a menos de 10% da interação nas redes.

No dia 18, um grupo coordenado de 398 perfis no twitter fez o bolsonarismo recuperar parte do protagonismo, mas há motivos para suspeitar que se trata do uso intensivo de robôs.

→ A primeira pesquisa da semana, da corretora XP, mostrou uma pequena queda na popularidade do governo, de 34% para 30%.

Governo Bolsonaro caiu de 34% para 30%

Os bolsonaristas comemoraram dizendo que a pesquisa mostra que o “Brasil profundo” segue com o capitão. É a mesma parolagem dita pelo PT noutros tempos.

A crise nem começou. Serão meses para a população sentir os efeitos das lotações dos hospitais, mortes de conhecidos e fábricas fechando com a crise.

O colchão de Bolsonaro está rompido.

→ As relações do Planalto com o Congresso pioraram depois da participação do presidente nas manifestações pela volta da ditadura.

Rodrigo Maia chamou o presidente de “irresponsável” por ter cumprimentado seus apoiadores mesmo estando sob suspeita de ter o vírus e depois se recusou a participar de reunião no Palácio do Planalto.

→ O isolamento político de Bolsonaro ficou evidente com as seguidas decisões dos governadores sobre como lidar para minimizar a epidemia. 8 Estados tomaram medidas de isolamento sem consultar o governo federal.

O Rio fechou a circulação de ônibus de passageiros e fechou aeroportos, Pernambuco e Amazonas deixaram cruzeiros à deriva, o Rio Grande do sul proibiu a entrada de ônibus de outros Estados, etc.

Ninguém consultou o presidente.

Na sexta-feira (20), Bolsonaro anunciou um órgão para coordenar as decisões dos Estados, mas já é tarde. Ele criticou os governadores por tomarem decisões independentes e foi trucidado.

“Estamos fazendo o que deveria ser feito pelo líder do País, o que o presidente Jair Bolsonaro, lamentavelmente, não faz, e quando faz, faz errado”, disse João Dória.

“Estamos regulamentando aquilo que nós entendemos que é fundamental para salvar vidas, e o governo federal precisa fazer sua parte. Nós não temos diálogo com o governo federal. Não sou só eu: os governadores que querem falar com o governo federal precisam mandar uma carta. Pelo amor de Deus, o governo federal precisa entender que não é hora de fazer política. É hora de trabalhar e ajudar os empresários que vão quebrar, as pessoas que vão perder o emprego e os que vão morrer de fome”, respondeu Wilson Witzel.

→ Dois aliados de luz própria se afastaram de Bolsonaro. A deputada Janaína Paschoal, que por pouco não foi a candidata a vice na chapa do capitão, passou a defender o seu afastamento:

“O que o presidente fez é inadmissível, injustificável, indefensável. É crime contra a saúde pública. Desrespeitou o seu ministro da Saúde. Esse senhor tem que sair da presidência da República. Deixa o Mourão, que é treinado para a defesa, conduzir a nação. O nosso País está entrando numa guerra contra um inimigo invisível. Como um homem que está possivelmente infectado vai para o meio da multidão? Eu me arrependi do meu voto”, declarou a deputada.

Deputada Janaína Paschoal

O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, que é médico, foi escorraçado pelos bolsonaristas da manifestação de domingo ao ir ao centro de Goiânia e discursar acusando o ato de ser uma “irresponsabilidade para a saúde pública”.

→ O filho, deputado Eduardo Bolsonaro, provocou uma briga imbecil com o embaixador da China. Os presidentes da Câmara, Senado e STF pediram desculpas ao embaixador. Os ruralistas ficaram furiosos. Ninguém com dois neurônios defendeu Eduardo.

→ O vice-presidente Hamilton Mourão, saiu do seu silêncio obsequioso para chamar o filho do presidente de “Eduardo Bananinha”.

→ A edição do Jornal Nacional da quarta-feira (18) é um retrato do esgarçamento das relações de Bolsonaro com a mídia. Depois de informar sobre as medidas anunciadas pelo governo, o JN gastou quatro minutos de reportagem para mostrar como o presidente e seus ministros não sabiam usar as máscaras.

Foi um espetáculo grotesco. O presidente parecia um limítrofe. A edição do telejornal concluiu mostrando vídeos do panelaço contra o presidente que ocorriam naquela noite.

É o pior momento para Bolsonaro brigar com a mídia.

Com o coronavírus, a busca por informação multiplicou. De acordo com o Ibope, as edições quase monotemáticas sobre o coronavírus do Jornal Nacional têm rendido audiência de 37 pontos na Grande São Paulo (a maior média desde janeiro de 2010) e de 38 pontos no Rio de Janeiro (recorde desde julho de 2012).

“Espetáculo grotesco”

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