Com 44,10% votos, a participante Thelma Assis desbancou as concorrentes e tornou-se campeã da 20ª edição do BBB, reality show da Rede Globo que terminou nesta segunda-feira (27) após 98 dias. Ela levou para a casa o prêmio de R$ 1,5 milhão, além de um carro zero da Fiat.

A médica anestesiologista Thelma Assis, ou Thelminha, tem 35 anos, e é natural de São Paulo. Sua história de superação começou cedo.

Ela foi adotada com apenas três dias, e descobriu o fato por meio de uma ligação anônima. “Até hoje não sei quem me ligou. Fiquei dois dias fora do ar, mas entendi a decisão dos meus pais. Ter nascido do coração deles foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido na vida”, disse ela, que nunca procurou a família biológica.

A médica também revelou episódios de racismo e autoaceitação. “Tanto na dança como na Medicina, sempre fui a única negra nos meus grupos”, disse. “A minha história é parecida com a de muitas meninas negras. Odiava meu cabelo, então alisava. Nem lembrava mais como ele era sem química. Um dia me revoltei e passei a tesoura. Foi minha libertação”, pontuou.

Casada há dez anos, ela também é bailarina e passista e por várias vezes, durante a edição, declarou seu amor ao samba. O fato de ser obstinada foi sua principal característica (dentro e fora do “BBB 20”).

Sem dinheiro para pagar a faculdade, ela estudou por três anos para passar no vestibular. Acabou ingressando em uma faculdade particular com bolsa de 100%, mas precisou trocar de cidade. “Primeiro, morei em uma pensão. Só levei uma caneca, um garfo e algumas roupas. Me virava com R$ 300 por mês. Só não passei fome. De resto, teve tudo que você possa imaginar”, contou ela ao site do programa, ao revelar que também nunca conseguiu comprar um livro e que não tinha estetoscópio para as aulas práticas.

Batalha para se formar

Thelma Assis foi a grande vencedora desta edição do Big Brother Brasil. Mas sua luta não se resume a ganhar um reality.

Nascida e criada na periferia de São Paulo, e adotada com três dias de vida, estudou com bolsa e foi a única mulher negra de sua turma na universidade.

Thelminha resistiu a ambientes repletos de privilégio e desigualdade

Seu sonho de ser médica surgiu ainda criança, quando foi tratada de uma bronquite. Para conseguir entrar no curso de medicina, ela passou três anos estudando em cursinho. Após as três tentativas, Thelma cursou a graduação na PUC-SP, no campus de Sorocaba, com bolsa de 100% pelo Programa Universidade para Todos (ProUni).

Seus pais adotivos, a funcionária pública aposentada Yara Assis, e o gráfico Carlos Alberto de Assis, moveram o mundo para dar a melhor educação para a filha. Thelma havia estudado em escola particular até o final do ensino médio (antes disso estudou em escola pública), fez balé e ajudava os pais a pagar a mensalidade do cursinho dando aulas e distribuindo panfletos.

“Eu sou fora da curva: fiz colegial em escola pública, fiz cursinho de R$ 120, que era o que minha mãe podia pagar, consegui uma bolsa em um cursinho melhor e entrei [na universidade] como bolsista. Eu era a única menina negra da minha turma. Tinham 100 pessoas, 99 eram brancas“, contou a sister, enfatizando a luta pelo diploma e a falta de negros nas universidades.

“Eu estudei com filho de político, de fazendeiro, e o kit básico para entrar na minha sala era ganhar carro e apartamento e eu não tinha um livro”, disse a anestesiologista.

Entrar na universidade é difícil, manter-se nela é outra realidade ainda mais dura em um país racista e desigual como o nosso. Já matriculada, Thelma não tinha condições de comprar os instrumentos e os livros do curso, que são caríssimos. Para economizar, usava fotocópias e almoçava no restaurante popular a R$ 1.

Sua formatura foi uma explosão de emoção! Só de lembrar de toda sua trajetória para chegar ali, impossível não derrubar as lágrimas. Antes de topar entrar no BBB20, a médica anestesiologista trabalhava em quatro hospitais da grande São Paulo.

Interação Internacional

A atriz Taís Araújo, que declarou torcida para a médica Thelma Assis, até então uma das três finalistas do “Big Brother Brasil 20”, teve um momento de êxtase nesta segunda-feira (27) ao ter um de seus tuítes curtido pela também atriz, a norte-americana Viola Davis.

Tudo começou quando Taís defendeu seu voto dizendo “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”.​ A atriz fez uma citação ​da filósofa ​​Angela Davis.

Pouco mais de uma hora após a postagem, Taís voltou para a rede social para comemorar: “Quando a @violadavis te retweeta em dia de final de Big Brother Brasil, você faz o que, Brasil? Hahaha #ThelmaCampeã demais!”

Carta Emocionante

A colunista Midiã Noelle, do Correio 24 horas, escreveu um texto emocionante para Thelma Assis horas antes da vencedora ser anunciada no programa. A ‘carta’ expressa a importância da vitória de Thelminha e o quanto esse momento significa para milhões de brasileiros que se sentem representados e inspirados pela sua trajetória de vida e pela que construiu dentro do reality.

Rainha sensata: uma carta para Thelminha Assis

“Oi Thelma. Tudo bem? Thelminha, né? Como o Brasil lhe chama. Essa coluna hoje é uma carta de agradecimento para você. Sim, mulher, para você! Obrigada por nestes quase 100 dias entrar em nossas casas e nos presentear com toda a sua sabedoria. Nos seus olhos, eu enxergo tanta beleza, trajetória e força. Me reconheço no seu olhar. Na sua forma de argumentar, na sua indignação. E até quando opta em se recolher e escutar. Eu me reflito em você.

Quando vi a foto da sua formatura, sendo a única negra rodeada de brancos, pensei em mim e em tantas meninas e mulheres negras. O quanto perrengue passamos. Pensei em como uma formatura significa tanto para nós. Mais do que para nós, para nossas famílias e para a nossa comunidade. Eu fui estudante bolsista de uma faculdade particular e sei o quanto é complicado conciliar as dificuldades do dia a dia, enfrentar os colegas e professores racistas e ainda se manter com a cabeça serena.

Soube que você foi adotada! Olha isso. Meu pai também foi adotado. No caso dele, por uma família branca. E sei, pela convivência com ele, o quanto esse fato deixa marcas nas vidas.

Você, Thelminha, carrega e nos traz muitos significados. Como li alguém escrever na internet, você representa tudo. Você representa tudo! E representa o Brasil.  

Um Brasil que venho aqui te dizer: não temos boas notícias. Nestes quase 100 dias em que você esteve na casa mais vigiada do Brasil, a casa do Big Brother, o BBB edição 20, muitas coisas aconteceram o país. Pior ainda, em todo o mundo. A pandemia do coronavírus (Covid-19) se alastrou globalmente em pouco tempo e nos fez parar e mudar toda nossa rotina.

Para algumas pessoas ficar em casa, seja trabalhando ou estudando – um privilégio dentro do caos – se tornou a prisão dentro dos lares. Para outras, em especial para a população negra empobrecida, como você já deve imaginar, as coisas pioraram. E tá difícil.

Respira fundo. Vou te contar…

Os trabalhadores informais ficaram na dúvida se vão na rua ganhar o pão para salvar a fome ou se ficam em casa para salvar suas vidas. As pessoas em contexto de rua estão ainda mais expostas e com mais dificuldade de receber alimentação e cuidados. As pessoas encarceradas estão sendo mantidas sem ver seus familiares, nas condições insalubres dos presídios superlotados, com alguns casos de contaminação por coronavírus confirmados, podendo ocorrer uma grande tragédia.

E os seus colegas, os profissionais de saúde? Estes estão sendo verdadeiros e verdadeiras heróis e heroínas. Em especial os profissionais que são técnicos, auxiliares ou do serviço de limpeza. Em sua maioria, estes profissionais somos nós, negros. Muitos não possuem EPIs e ainda assim continuam trabalhando. O que é realmente angustiante e desesperador para eles/elas e para os familiares. Como eu, que tenho grande parte da minha família trabalhando em hospitais públicos.

Como pode ver Thelminha, as coisas não andam muito bem por aqui. E diante de tanta situação difícil e desigual, assistir você nestes dias, com toda sua paciência para peitar os “macho escroto” e as ditas fadas sensatas foi inspirador. Inspiração em resiliência.

Não sei qual será o resultado hoje, da grande final. Mas te digo que você já é a grande campeã desta edição por mostrar ao Brasil que Tiago Leifert estava errado, pois esse BBB 20 não foi de duas narrativas, das mulheres (quase em sua totalidade brancas no programa) e a do Babu, da pauta racial. A narrativa dessa edição foi sua: feminista negra e antirracista. Unindo tudo. Porque a sua luta é a nossa luta e é interseccional.

Parabéns pela vitória de ser Thelma Regina.

Ubuntu.”

Registros da época acadêmica de Thelminha

A vitória de Thelma Assis vai além de possuir R$ 1,5 milhões na conta. É uma vitória que representa resistência, que demonstra que o negro pode e deve sonhar porque é sim capaz de chegar aonde quiser. Thelminha é sinônimo de força e coragem diante de uma sociedade onde o racismo estrutural ainda tira a expectativa de muitos.

Ver a Thelminha no pódio, desbancando finalistas fortes, é um momento histórico. Um momento que já começa a inspirar milhares de pessoas em todo o país. Thelminha é uma forte representação de que é possível sim sonhar e conquistar. E que, independente das barreiras sociais e estruturais, somos fortes o suficiente para resistirmos e ocuparmos o lugar que quisermos.

Parabéns, Thelminha. Vencemos juntos!

A vitória é nossa!

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